Lenda do Arroz:
Há muitos e muitos anos havia no Oriente um reinado poderoso sob o governo de um rei magnânimo,
sentimental e justo, que amava seu povo e era por ele amado.
A rainha participava dos sentimentos elevados do seu real esposo e era também muito querida por
todos pelo seu coração boníssimo, sempre afeito à prática de boas obras.
O rei, um velho chinês, amava de modo especial as crianças e procurava tudo fazer para alegrá-las
e vê-las felizes nos seus folguedos e nas suas pequeninas ambições infantis.
E porque adorava as crianças, resolveu um dia adotar uma menina loura, muito meiga e bonita,
já que o casal real não possuía filhos e vivia muito triste por esse motivo.
Eles tinham um reino e um palácio maravilhoso, mas faltava-lhes o ruído, a graça e o sorriso de uma criança.
A menina loura, sim, loura porque não pertencia à sua raça, crescia, crescia, e tornou-se uma das
jovens mais lindas e admiradas de todo o reino.
Sempre meiga, obediente e companheira amiga de todas as horas de seus velhos pais adotivos,
era o encanto e o centro das principais atenções e desvelos do Rei e da Rainha.
Lina, como a chamavam, entretanto nunca pode adaptar-se à alimentação que lhe davam.
Embora a contragosto, sempre queixava-se dos alimentos servidos, e o que conseguia comer
mal dava para mantê-la de pé, tão fraco era o seu organismo e o seu estado geral, dia a dia,
perdendo saúde e resistência.
Como o Rei e a Rainha a amavam profundamente e preocupava-lhes demais o seu estado de fraqueza,
fizeram-na Princesa da Corte para alegrá-la, enquanto chamavam a serviço do Rei os melhores
cozinheiros então conhecidos, a fim de que dessem à Princesa os alimentos mais raros e apetitosos
que fossem de seu gosto.
Os mestres da cozinha esmeravam-se na apresentação dos melhores pratos que podiam imaginar e preparar,
mas todos eram recusados por Lina, que não podia adaptar-se ao sistema e ao sabor para ela esquisito,
da alimentação oriental.
Não obstante dona do coração e da vontade de seus amados pais, Lina cada vez mais enfraquecia, até que
um dia a morte a levou para o outro reino desconhecido.
A morte da moça loura, meiga e bonita, encheu de grande amargura todo Reino e da mais profunda tristeza,
inconsolável tristeza, os seus dedicados e amorosos pais.
O Rei, passado algum tempo, e jamais esquecendo sua Princesa loura, agora longe dos seus olhos e dos seus
carinhos, tomou as maiores providências para que os cozinheiros, os técnicos em alimentação de todo o Reino,
descobrissem um alimento que, pelo seu sabor, pela facilidade de seu preparo, pela abundância de sua colheita,
fosse apreciado e preferido por todos e constituísse o alimento primeiro de todas as mesas, o prato favorito,
do agrado e do interesse de todas as pessoas e, principalmente, de todas as crianças do mundo.
Era grande a atividade de todos aqueles convocados pelo Rei para a descoberta do alimento ideal.
Mas nada conseguiram, porque os seus conhecimentos eram limitados e só Deus guardava o segredo da natureza.
E o tempo passava e todas as providências se multiplicavam para que a vontade do Rei fosse alcançada.
E o tempo, passava, passava, nada conseguiam os cozinheiros e os técnicos do Rei.
E, aos poucos, todas as providências e iniciativas naquele sentido foram sendo abandonadas, enquanto o rei,
tristonho e abatido, acompanhava o insucesso e o lento desmoronar de todo o seu sonho.
Mas, um dia, uma notícia alvissareira espalhou-se por todo reino: junto ao túmulo da Princesa Lina, nasceu
uma plantinha muito verde, esguia, que cresceu, de tal forma que encheu-se de cachos louros de uma pequena
semente, muito branca e muito saborosa, que se tornou o alimento preferido de todos, o “alimento ideal” que
o Rei tanto procurava, em memória de sua Princesa adorada.
Essa plantinha era o arroz.
Fonte: Jornal do Povo – 18 e 19 de maio de 1968 – pág.4
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